Endometriose não afeta só o sistema ginecológico e pesquisas investigam relação da doença com inflamação, intestino e até queda de cabelo
Estudo recente aponta que medicamentos usados no emagrecimento podem ajudar no controle dos sintomas, mas especialistas alertam que tratamento ainda exige cautela
Durante anos, a endometriose foi associada apenas ao sistema reprodutivo feminino. Mas estudos recentes vêm mostrando que a doença pode impactar diferentes regiões do corpo e provocar sintomas muito além das cólicas menstruais intensas. Intestino, bexiga, metabolismo, fertilidade e até a saúde capilar podem ser afetados por processos inflamatórios ligados à condição.
Uma pesquisa recente publicada pela plataforma Weight Loss Rankings avaliou evidências científicas envolvendo medicamentos agonistas de GLP-1, popularmente conhecidos como canetas emagrecedoras, e a melhora de sintomas da endometriose. O levantamento aponta que há plausibilidade biológica para benefícios relacionados à redução da inflamação sistêmica, embora ainda não existam estudos clínicos definitivos comprovando que os medicamentos tratem diretamente a doença.
Segundo a análise, mulheres com endometriose frequentemente apresentam processos inflamatórios persistentes, alterações hormonais e resistência metabólica, fatores que também podem impactar outros sistemas do organismo. A publicação destaca ainda que pacientes relataram melhora de dores pélvicas, fadiga e inchaço abdominal após uso dessas medicações, mas reforça que não existem ensaios clínicos conclusivos sobre tratamento específico da endometriose com GLP-1.
Dados inéditos da iHealth Insights reforçam o impacto sistêmico da doença. O levantamento identificou 36.527 mulheres com diagnóstico, histórico ou investigação de endometriose em uma base com mais de 3 milhões de pacientes atendidos em 44 instituições de saúde brasileiras.
A pesquisa mostrou que, além da dor pélvica, sintomas como cefaleia, náuseas, diarreia e vômitos aparecem com frequência entre as pacientes, reforçando que a doença pode atingir diferentes sistemas do organismo.
Para Karlyse C. Belli, diretora de dados da iHealth, os números mostram que a condição ainda é subdiagnosticada no Brasil.
“A endometriose ainda é uma condição subdiagnosticada, muitas vezes normalizada dentro da rotina feminina. Quando analisamos dados clínicos em escala, conseguimos enxergar padrões que mostram não apenas a prevalência, mas também a sobreposição com outras condições e o impacto real na jornada dessas pacientes”, afirma.
O ginecologista Dr. César Patez explica que muitos sintomas acabam sendo confundidos com problemas gastrointestinais e urinários, atrasando o diagnóstico por anos.
“A adolescente com endometriose geralmente apresenta dor progressiva, muitas vezes incapacitante e que não melhora com analgésicos comuns. Sintomas associados ao período menstrual, como dor ao evacuar ou urinar, também são sinais de alerta. O diagnóstico precoce muda completamente a evolução da doença”, destaca.
Além da inflamação e da dor crônica, especialistas também observam impactos indiretos na saúde capilar. Isso porque alterações hormonais, deficiência nutricional, emagrecimento acelerado e inflamação sistêmica podem afetar o ciclo dos fios.
Segundo a dermatologista e tricologista Dra. Rebecca Atman, o organismo feminino costuma responder rapidamente a alterações metabólicas importantes.
“O folículo piloso é muito sensível às mudanças metabólicas”, explica.
A especialista afirma que quadros inflamatórios e perda rápida de peso podem desencadear o chamado eflúvio telógeno, condição caracterizada pelo aumento importante da queda capilar.
“O eflúvio telógeno costuma surgir alguns meses após uma mudança metabólica importante. O paciente percebe aumento da queda, fios espalhados pela escova, travesseiro ou banho, mas isso não significa necessariamente perda definitiva do cabelo”, afirma Rebecca Atman.
Pesquisas recentes também vêm avaliando se medicamentos agonistas de GLP-1 poderiam ajudar no controle indireto da endometriose ao reduzir inflamação, gordura visceral e resistência à insulina.
Para o oncologista Mateus Colturato, já existem sinais clínicos importantes sendo observados.
“A relação entre as chamadas canetas emagrecedoras e a endometriose deixou de ser um mero boato de internet. Hoje, já existe comprovação científica de que esse benefício é real”, afirma.
Segundo ele, algumas pacientes apresentaram melhora importante de sintomas associados à doença.
“Mais de um terço das pacientes teve melhora completa de dores pélvicas, dores nas costas ou daquele terrível inchaço abdominal conhecido como ‘endo belly’”, explica.
O especialista afirma que a inflamação desempenha papel central na progressão da doença.
“A endometriose é uma doença que se alimenta de três coisas: inflamação, hormônios desregulados e problemas metabólicos. Essas medicações agem como um combate triplo contra esses fatores”, diz.
Apesar disso, médicos alertam que os medicamentos ainda não podem ser considerados tratamento específico para endometriose.
O ginecologista Dr. Igor Chiminacio reforça que as evidências disponíveis ainda são preliminares.
“Existe plausibilidade biológica para essa associação, mas ainda é cedo para afirmar que os agonistas de GLP-1 sejam um tratamento para a endometriose”, explica.
Segundo ele, a melhora observada em algumas pacientes pode estar relacionada principalmente à redução da inflamação sistêmica e melhora metabólica.
“A redução da gordura visceral, a melhora da resistência à insulina e a diminuição da inflamação sistêmica observadas com os agonistas de GLP-1 podem teoricamente contribuir para uma melhora dos sintomas, especialmente dor, fadiga e qualidade de vida”, afirma.
O médico também alerta para o risco de falsas promessas.
“Relatos individuais são importantes para gerar hipóteses científicas, mas não devem ser interpretados como prova de eficácia terapêutica”, pontua.
Já o ginecologista e obstetra Dr. Paulo Noronha destaca que a endometriose pode afetar profundamente a qualidade de vida das pacientes.
“A endometriose pode trazer alterações importantes na qualidade de vida da mulher: dor pélvica, dor na relação sexual, cólicas menstruais fortes, irregularidades menstruais”, afirma.
Segundo ele, a doença também está associada a dificuldades reprodutivas.
“O que sabemos é que, de fato, existe uma associação entre endometriose e perda gestacional recorrente. Porque na presença de endometriose o endométrio apresenta uma qualidade ruim para a implantação do embrião”, explica.
Embora os estudos sobre GLP-1 tragam novas perspectivas, especialistas reforçam que a endometriose continua sendo uma doença complexa, multifatorial e que exige acompanhamento individualizado, sem substituir tratamentos ginecológicos já estabelecidos.
(Foto: Inteligência Artificial)

