Doação de órgãos em Goiás esbarra em alta recusa familiar e campanha aposta na conversa dentro de casa

Com mais de 2,5 mil pessoas aguardando por um transplante em Goiás, a decisão das famílias continua sendo um dos principais desafios para ampliar a doação de órgãos no estado. Dados da Secretaria de Estado da Saúde (SES-GO) apontam que a recusa familiar ainda chega a quase 70%, apesar dos avanços registrados na realização de transplantes.

Em 2025, por exemplo, os transplantes de rim cresceram cerca de 30% em relação ao ano anterior. O órgão está entre os mais aguardados por pacientes que integram a fila de transplantes.

A nefrologista cooperada da Unimed Goiânia, Dra. Myllena Vieira, explica que a hipertensão arterial e o diabetes estão entre os principais fatores relacionados ao desenvolvimento da doença renal crônica no mundo.

“Quando ocorre a falência renal, o paciente precisa da substituição da função, seja por diálise ou transplante. É importante frisar que o transplante é uma modalidade terapêutica, e não a cura da doença”, explica.

O transplante renal pode ser realizado a partir de um doador vivo, geralmente um familiar compatível, ou por meio de um órgão proveniente de doador falecido. Neste último caso, a realização do procedimento depende diretamente da autorização da família.

Antes de chegar à necessidade de substituição da função renal, alguns cuidados ajudam a evitar a progressão da doença. De acordo com a médica, evitar tabagismo e alcoolismo, praticar atividades físicas regularmente, manter uma alimentação balanceada e seguir adequadamente o tratamento de doenças preexistentes são medidas importantes.

Cuidados continuam depois do transplante

A realização da cirurgia não encerra os cuidados necessários. O processo passa por uma avaliação detalhada de compatibilidade e exige acompanhamento contínuo depois do procedimento.

“Após o transplante, o paciente deve manter o uso de imunossupressores e seguir acompanhamento médico frequente. Sintomas como febre, inchaço, dor no local do enxerto ou diminuição da urina devem ser observados imediatamente, pois podem indicar rejeição”, alerta a nefrologista.

Além dos aspectos médicos, entretanto, a doação de órgãos após a morte envolve uma decisão que ultrapassa o ambiente hospitalar.

Família tem a palavra final

Mesmo que uma pessoa tenha manifestado em vida o desejo de ser doadora, a autorização dos familiares é indispensável para que a doação seja efetivada. Também não é necessário registrar previamente essa vontade em um documento.

“A doação só é efetivada com a autorização da família, mesmo quando a pessoa já manifestou esse desejo em vida. Não é necessário nenhum registro prévio em documento”, afirma Dra. Myllena Vieira.

Por isso, conversar previamente sobre o tema pode fazer diferença quando os familiares precisam tomar a decisão em um momento marcado pela dor e pela urgência.

O desconhecimento sobre o processo também contribui para a recusa. Entre as dúvidas e os mitos mencionados pela especialista estão o receio de que o tratamento de uma pessoa seja interrompido por ela ter declarado o desejo de doar, a dificuldade de compreensão da morte encefálica, o temor de deformação do corpo depois da retirada dos órgãos e a crença de que o velório não poderá ocorrer com o caixão aberto.

“A doação de órgãos é um gesto de solidariedade e compaixão para com outro ser humano, que muitas vezes tem no transplante sua única possibilidade de viver. Mesmo após a morte, é possível permitir que a vida continue”, resume.

Campanhas buscam levar discussão para as famílias

O crescimento das doações em Goiás nos últimos anos também ocorre em meio a iniciativas de conscientização, como o Setembro Verde. Para a nefrologista, a evolução está associada à capacitação dos profissionais responsáveis pelo acolhimento das famílias de potenciais doadores e às ações realizadas pela Central de Transplantes em hospitais, escolas, órgãos públicos e empresas privadas.

A medicina também registrou avanços no período. A especialista menciona imunossupressores mais modernos, ampliação da infraestrutura das unidades transplantadoras e métodos mais eficazes para diagnosticar rejeição. Ela cita ainda o primeiro xenotransplante realizado por um médico brasileiro nos Estados Unidos, procedimento que permanece em caráter experimental.

Neste ano, a Unimed Goiânia participa desse movimento com a campanha “Uma decisão que multiplica vidas”, realizada como parte do Setembro Verde em parceria com a Secretaria de Estado da Saúde.

A iniciativa procura incentivar os beneficiários a levarem o assunto para dentro de casa e comunicarem aos familiares o desejo de se tornarem doadores.

“Enquanto cooperativa médica, colocamos nossa estrutura e nossos cooperados a serviço de causas que impactam toda a sociedade goiana. Quanto mais pessoas conversarem sobre doação de órgãos dentro de casa, mais pacientes terão a oportunidade de retomar uma vida mais saudável, como sair da hemodiálise, no caso de quem precisa de um transplante de rim”, ressalta o diretor-presidente da Unimed Goiânia, Dr. Lueiz Amorim Canedo.

(Crédito: Canva)

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