Casos de câncer de ovário crescem no Brasil e especialistas alertam para sintomas silenciosos da doença
Estudos revelam impacto bilionário no SUS, aumento de diagnósticos em mulheres acima dos 60 anos e dificuldade de identificação precoce
Silencioso, agressivo e muitas vezes descoberto apenas em estágios avançados, o câncer de ovário tem acendido um alerta entre especialistas da saúde no Brasil. Além do crescimento no número de diagnósticos registrados em hospitais brasileiros, a doença também já gerou um impacto superior a R$ 469 milhões ao Sistema Único de Saúde (SUS) nos últimos cinco anos, segundo levantamento da plataforma EpiMarket, da Techtrials.
Os dados reforçam um desafio histórico da oncologia feminina: a dificuldade no diagnóstico precoce. Isso porque os sintomas costumam ser confundidos com problemas gastrointestinais, hormonais ou alterações ginecológicas consideradas comuns.
O estudo da Techtrials mostra que, apenas com hospitalizações relacionadas ao câncer de ovário, o SUS desembolsou R$ 301,43 milhões em 60 meses. Foram mais de 70 mil internações envolvendo cerca de 12 mil pacientes. Já os tratamentos quimioterápicos somaram R$ 167,76 milhões, com destaque para o medicamento Docetaxel, responsável sozinho por mais de R$ 94 milhões em gastos públicos.
Para Douglas Andreas Valverde, fundador e presidente da Techtrials, o avanço dos casos e o alto custo assistencial mostram que o câncer de ovário deixou de ser apenas um desafio clínico para se tornar também uma preocupação econômica.
“Estamos falando de uma doença que ainda é diagnosticada, na maior parte das vezes, em fases avançadas, o que aumenta significativamente a complexidade do tratamento e, consequentemente, os custos para o sistema público de saúde. O uso de dados em saúde permite entender melhor esse cenário e contribui para a construção de políticas públicas mais eficientes”, afirma.
Segundo o especialista, o acesso rápido ao diagnóstico ainda representa uma das maiores barreiras no tratamento oncológico brasileiro.
“O acesso rápido ao diagnóstico e ao tratamento adequado ainda é um dos maiores desafios da oncologia no Brasil. Quando conseguimos identificar a doença precocemente, aumentamos as chances de resposta terapêutica e reduzimos impactos humanos e financeiros”, acrescenta Douglas Andreas Valverde.
Uma segunda pesquisa, realizada pela iHealth Clinical Insights, identificou 16.943 mulheres com câncer de ovário presente, histórico ou em investigação em uma base nacional composta por aproximadamente 3,1 milhões de pacientes atendidos em 52 instituições de saúde distribuídas por 15 estados brasileiros.
O levantamento aponta maior concentração de casos entre mulheres de 60 a 79 anos, faixa etária que representa 40,5% dos registros. Em seguida aparecem mulheres entre 40 e 59 anos, com 37,2% dos casos.
Entre os sintomas mais frequentes encontrados nos prontuários estão dor abdominal persistente, inchaço, sangramento, alterações intestinais, ascite, constipação e desconforto respiratório.
Para o ginecologista e obstetra Dr. César Patez, um dos maiores problemas relacionados ao câncer de ovário é justamente o caráter silencioso da doença.
“O câncer de ovário costuma representar um desafio porque os sintomas podem parecer inespecíficos e se confundir com alterações gastrointestinais, urinárias ou hormonais. Dor abdominal persistente, sensação de inchaço, alteração intestinal, desconforto pélvico e aumento do volume abdominal não devem ser ignorados, especialmente quando persistem ou mudam o padrão habitual da paciente”, explica.
Os dados também revelaram a presença frequente de outras condições de saúde entre as pacientes diagnosticadas, como hipertensão arterial, diabetes, histórico de tabagismo, ansiedade, anemia e até câncer de mama associado.
Além disso, a pesquisa mostra uma intensa jornada hospitalar, marcada por exames frequentes, procedimentos cirúrgicos e sessões de quimioterapia.
O ginecologista e obstetra Dr. Paulo Noronha alerta que ainda existem muitos mitos relacionados à prevenção do câncer de ovário, especialmente envolvendo parto e vacinação.
“Parto normal não é uma vacina contra câncer de ovário, e cesárea não causa câncer de ovário. O efeito protetor observado está mais relacionado ao histórico reprodutivo da mulher, como ter engravidado, ter tido filhos e amamentado, fatores que reduzem o número de ovulações ao longo da vida”, esclarece.
Segundo o médico, outra confusão comum envolve a vacina contra HPV.
“A vacina contra HPV é extremamente importante, mas principalmente para prevenção do câncer de colo do útero e de outros tumores relacionados ao vírus. O câncer de ovário não é considerado um câncer HPV-dependente, então não podemos tratá-la como uma vacina de prevenção do câncer de ovário”, afirma.
Sem um exame de rastreamento populacional tão consolidado quanto a mamografia ou o Papanicolau, especialistas reforçam que o acompanhamento ginecológico regular continua sendo a principal ferramenta para identificar alterações precocemente.
“A principal recomendação é não negligenciar sintomas persistentes e manter acompanhamento ginecológico em dia. Também faz diferença investir em hábitos saudáveis, alimentação equilibrada, sono adequado e atividade física. Informação e atenção aos sinais do corpo continuam sendo grandes aliadas”, orienta Dr. Paulo Noronha.
Para Karlyse C. Belli, Diretora de Dados da iHealth, os levantamentos ajudam a compreender a complexidade da jornada clínica dessas pacientes e podem colaborar para decisões médicas mais precisas e estratégias de cuidado mais eficientes em escala nacional.
(Foto: Inteligência Artificial)

