Ao lado dos trilhos, projeto transforma ruído e infraestrutura ferroviária em arquitetura na Barra Funda
Bar construído com estrutura metálica utiliza grandes vãos, fachadas abertas e quintais internos para criar uma nova relação entre cidade, mobilidade e espaço urbano
Ao lado da linha férrea da CPTM, em uma das regiões mais dinâmicas da capital paulista, um projeto arquitetônico decidiu fazer justamente o oposto do que normalmente ocorre em áreas marcadas por ruído intenso e infraestrutura pesada: em vez de se fechar para a cidade, abriu-se completamente para ela. Localizado na Barra Funda, o Brotero 39 Bar Ateliê utiliza estrutura metálica aparente, grandes vãos livres e uma sequência de quintais internos para transformar um terreno desafiador em um espaço de convivência integrado ao bairro.

Com uma resposta marcada pela clareza estrutural, a solução construtiva adotada é mista, com o sistema em aço assumindo papel dominante na leitura do conjunto. A estrutura metálica atua como elemento organizador do espaço, liberando grandes vãos, ampliando a transparência e estabelecendo um diálogo direto com o entorno urbano. “A leveza da estrutura em aço foi escolhida para imprimir transparência e suavidade à fachada, contrapondo-se à infraestrutura pesada da linha férrea”, afirma o arquiteto Alexandre Liba, do escritório Liba Arquitetura. “O aço atua como mediador urbano, equilibrando a intensidade do contexto com abertura, legibilidade e presença arquitetônica”, acrescenta.

De acordo com o arquiteto, a organização espacial do conjunto decorre de uma lógica construtiva em que a estrutura metálica se expressa como elemento livre e ordenador, enquanto a alvenaria resolve as áreas de serviço de forma sólida e integrada. “Terrenos em ‘L’ costumam gerar edifícios fragmentados. No Brotero 39, essa condição é revertida por uma estratégia direta: dois volumes principais, Bar e Galeria/Ateliê, intercalados por três quintais. Eles funcionam como zonas de respiro e transição, organizando a circulação de forma fluida e compreensível”, explica.

O Centro Brasileiro da Construção em Aço (CBCA) destaca que a estrutura metálica foi fundamental para garantir a precisão construtiva exigida pelo projeto e permitir uma forte conexão com o contexto urbano. A entidade ressalta ainda que a lógica espacial viabilizada pelo aço possibilita grandes vãos livres e uma leitura contínua dos ambientes, características essenciais para o conceito arquitetônico adotado.

Outro aspecto marcante do projeto é a decisão de deixar os elementos construtivos aparentes. Perfis metálicos, blocos de concreto, lajes steel deck e telhas sanduíche permanecem visíveis, tornando legível o processo construtivo e eliminando camadas intermediárias de acabamento. “A opção por manter a estrutura aparente estabelece uma relação direta entre edifício e cidade”, destaca Alexandre Liba. Segundo ele, a utilização de telhas translúcidas permite que o edifício filtre a luz durante o dia e se ilumine como uma espécie de lanterna urbana durante a noite.
A relação com o bairro também está presente no uso cotidiano do espaço. As seis portas metálicas integradas aos pórticos estruturais transformam a fachada em um dispositivo dinâmico, capaz de ampliar ou reduzir a conexão entre interior e exterior conforme o funcionamento do empreendimento. Em vez de atuar como barreira, a fachada se torna parte ativa da experiência urbana.
Em um entorno marcado pelo ruído constante dos trens e pelo intenso fluxo urbano, o projeto também incorpora estratégias passivas de conforto ambiental. A disposição dos volumes e dos quintais favorece a ventilação cruzada, enquanto o pé-direito elevado e as aberturas zenitais potencializam o chamado efeito chaminé, auxiliando na renovação do ar e no controle térmico dos ambientes. “Essas estratégias funcionam como barreiras ambientais suaves, filtrando ruído e fluxo sem romper a presença urbana”, pontua o arquiteto.
Para Alexandre Liba, o Brotero 39 demonstra como a lógica industrial pode gerar impactos positivos na cidade quando aplicada com precisão. “A abertura física para o bairro reposiciona o edifício como parte viva do cotidiano, mais próximo de uma infraestrutura cultural do que de um objeto isolado. E a estrutura em aço permite eliminar muros e transformar o edifício em suporte para a vida urbana”, conclui.
Ficha Técnica
Projeto Arquitetônico / Arquiteto Responsável: Liba Arquitetura / Alexandre Liba
Empresa Responsável pela Montagem da Estrutura em Aço: Nova Engemetal
Execução da Obra: JFLC Obras
Empresa Responsável pelo Projeto da Estrutura em Aço: Companhia de Projetos
Área Construída: 170 m²
Volume de Aço Empregado: 12 toneladas
Conclusão da Obra: 2025
Local: São Paulo (SP)
Sobre o CBCA
O Centro Brasileiro da Construção em Aço (CBCA) é uma entidade de classe criada em 2002 com o objetivo de ampliar a participação da construção industrializada em aço no mercado nacional, promovendo ações para sua divulgação e apoiando o desenvolvimento tecnológico do setor. O CBCA tem como gestor o Instituto Aço Brasil e não possui caráter comercial. Para acessar os últimos dados divulgados pela entidade sobre o mercado da construção em aço, acesse: www.cbca-acobrasil.org.br/site/estatisticas

