Endometriose na adolescência: dados acendem alerta para diagnóstico precoce e escuta dos sintomas
Levantamento nacional mostra impacto da dor e reforça importância de identificar sinais ainda nas fases mais jovens
A endometriose ainda é subdiagnosticada no Brasil, inclusive entre adolescentes, e os números ajudam a dimensionar o problema. Dados da iHealth Insights, com base em mais de 3 milhões de pacientes atendidos em 44 instituições de saúde, apontam que 36.527 mulheres têm diagnóstico, histórico ou investigação da doença, o equivalente a 1,32% do total feminino analisado. A dor aparece como principal sintoma, presente em 57% dos casos, seguida por sangramentos em 22%, cefaleia em 14%, náuseas em 13% e alterações gastrointestinais, como diarreia em 10% e vômitos em 9%.
Embora a maior concentração esteja entre mulheres de 40 a 59 anos, que representam 54,2% dos registros, e 35,1% entre 18 e 39 anos, o levantamento também identificou casos em faixas etárias mais jovens. Entre 2023 e 2025, cerca de 1.800 mulheres tiveram atendimentos relacionados à condição, reforçando o impacto contínuo no sistema de saúde. Diante desse cenário, cresce o alerta para a importância de reconhecer sinais ainda na adolescência, evitando a progressão da doença e reduzindo impactos físicos e emocionais.
A seguir, confira pontos essenciais que ajudam a identificar a endometriose precocemente.
Cólicas muito intensas não são normais
Durante a adolescência, é comum que o corpo ainda esteja em fase de adaptação hormonal, o que pode gerar desconfortos menstruais. No entanto, quando a dor ultrapassa o limite do tolerável e interfere na rotina, é preciso investigar. A normalização desse tipo de sintoma ainda é um dos principais fatores que atrasam o diagnóstico.
O ginecologista Dr. Igor Chiminacio alerta para a importância de observar sinais persistentes que fogem do padrão esperado. “Cólicas muito intensas, que impedem a adolescente de realizar suas atividades, não devem ser negligenciadas. Esse é um dos principais sinais de alerta para a endometriose e precisa ser investigado.”
Dor fora do período menstrual merece atenção
A dor pélvica associada à endometriose nem sempre está restrita ao ciclo menstrual. Em muitos casos, ela pode surgir em outros momentos, o que dificulta a identificação e leva à subestimação do problema. Esse padrão fora do esperado é um indicativo importante de que algo não está funcionando corretamente no organismo.
Segundo o Dr. Igor Chiminacio, esse tipo de dor precisa ser investigado com atenção. “Quando a dor acontece fora do período menstrual, é importante investigar. A endometriose pode causar inflamação contínua, levando a desconforto em diferentes fases do ciclo.”
Alterações intestinais podem estar relacionadas
A doença não se limita ao sistema reprodutivo e pode afetar órgãos próximos, como o intestino. Por isso, sintomas gastrointestinais recorrentes, principalmente durante o período menstrual, não devem ser ignorados. Muitas vezes, esses sinais são tratados de forma isolada, sem a investigação da causa principal.
O especialista reforça que a repetição desses sintomas é um sinal importante. “A endometriose pode acometer o intestino, causando sintomas como dor ao evacuar, alteração do hábito intestinal e desconforto abdominal. Esses sinais devem ser avaliados, principalmente quando se repetem mensalmente.”
Dor ao urinar também pode ser um sinal
Assim como o intestino, o trato urinário pode ser impactado pela endometriose. A dor ao urinar, especialmente quando associada ao ciclo menstrual, costuma ser confundida com infecções urinárias, o que pode atrasar o diagnóstico correto.
De acordo com o Dr. Igor Chiminacio, a investigação adequada evita erros de diagnóstico. “A dor ao urinar, principalmente associada ao período menstrual, pode indicar comprometimento do sistema urinário pela endometriose. É importante investigar para evitar diagnósticos equivocados.”
Histórico familiar aumenta o risco
A endometriose possui um componente genético relevante, o que torna o histórico familiar um fator importante na avaliação clínica. Filhas de mulheres diagnosticadas com a doença têm maior probabilidade de desenvolver o quadro, o que exige atenção redobrada desde cedo.
O ginecologista destaca que esse fator deve ser considerado desde as primeiras consultas. “Se há casos de endometriose na família, a atenção deve ser redobrada. O fator genético influencia, e isso pode antecipar o diagnóstico quando há suspeita clínica.”
O impacto vai além da dor física
Conviver com dor crônica na adolescência pode afetar diretamente o desenvolvimento emocional e social. A jovem pode passar a evitar atividades do dia a dia, como escola e convivência com amigos, o que impacta sua qualidade de vida e saúde mental.
A psicóloga Anastacia Cristina Macuco Brum Barbosa explica que o impacto vai além do físico. “A dor constante não afeta só o corpo, ela vai mexendo com o emocional aos poucos. A adolescente pode se afastar da escola, evitar convivência social e desenvolver sentimentos de frustração e isolamento, o que impacta autoestima e relações.”
Ela também chama atenção para a importância de validar os sintomas. “Muitas meninas escutam que sentir dor é normal, o que faz com que duvidem de si mesmas e demorem a buscar ajuda. Esse atraso prejudica não só o tratamento, mas também a construção da autoestima e da confiança no próprio corpo.”
Considere outras causas de dor pélvica
Nem toda dor pélvica está relacionada à endometriose, e a investigação correta é fundamental para evitar diagnósticos equivocados e garantir o tratamento adequado para cada caso.
A cirurgiã vascular Dra. Aline Helena explica que existem diferenças importantes entre as condições. “A endometriose costuma ter relação com o ciclo menstrual, enquanto outras condições, como a congestão pélvica, apresentam dor contínua e sensação de peso. Exames de imagem, como ultrassonografia com Doppler, são essenciais para diferenciar essas condições.”
Aposte em acompanhamento multidisciplinar desde cedo
Os dados mostram que a doença pode evoluir ao longo dos anos, tornando o cuidado contínuo essencial. O acompanhamento multidisciplinar permite não apenas controlar os sintomas, mas também preservar a qualidade de vida e a saúde reprodutiva.
O ginecologista Dr. Vinícius Araújo reforça a importância desse cuidado integrado. “O diagnóstico precoce permite acompanhar a evolução da doença e intervir no momento certo. Em casos específicos, podemos pensar até em estratégias de preservação da fertilidade. O mais importante é um cuidado individualizado e multidisciplinar.”
Os números reforçam que a endometriose não é uma condição restrita à vida adulta. Identificar sinais ainda na adolescência, com base em dados e escuta ativa, pode transformar o prognóstico e garantir mais qualidade de vida para milhares de jovens.
(Crédito: Imagem criada por IA)

