Perimenopausa já impacta a rotina de milhões de mulheres no mercado de trabalho e os sintomas na saúde pélvica ainda são pouco discutidos

Alterações hormonais que começam anos antes da menopausa podem favorecer perda urinária, urgência urinária, dores durante as relações sexuais e outras alterações do assoalho pélvico. Especialistas alertam que empresas e profissionais de saúde precisam ampliar o olhar para essa fase da vida feminina.

Aos 46 anos, a executiva de marketing Mariana Costa* começou a perceber que algo estava diferente. Dormia mal, tinha dificuldade para se concentrar em reuniões importantes e, aos poucos, passou a sentir uma necessidade frequente de ir ao banheiro durante o expediente. Em viagens de trabalho, o planejamento incluía sempre uma preocupação extra: onde estavam os banheiros mais próximos.

No início, acreditou que tudo fosse consequência do estresse. A rotina intensa, a responsabilidade de liderar equipes e a sobrecarga típica de quem concilia carreira e família pareciam justificar os sintomas. Somente meses depois, durante uma consulta médica, descobriu que estava na perimenopausa.
Histórias como a de Mariana são mais comuns do que se imagina.

Embora a maioria das pessoas associe a menopausa apenas às ondas de calor e às alterações de humor, especialistas alertam que a transição hormonal também pode provocar mudanças importantes na saúde pélvica da mulher, afetando diretamente sua qualidade de vida e até seu desempenho profissional.

Segundo a The Menopause Society (antiga North American Menopause Society), a perimenopausa pode começar entre os 40 e 45 anos e durar de quatro a oito anos antes da menopausa. Nesse período, as oscilações hormonais podem provocar mais de 30 sintomas diferentes, incluindo alterações urinárias, dores durante as relações sexuais, urgência para urinar e maior risco de disfunções do assoalho pélvico.

Ao mesmo tempo, essa costuma ser uma fase de grande crescimento profissional. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que a participação feminina no mercado de trabalho aumentou de forma consistente nas últimas décadas e que mulheres entre 40 e 59 anos representam uma parcela importante da força de trabalho brasileira, ocupando cada vez mais posições de liderança.

É justamente nesse momento da carreira que muitas começam a enfrentar uma transformação fisiológica sobre a qual ainda se fala pouco.

Quando os sintomas são confundidos com estresse

A dificuldade para identificar a perimenopausa ainda é um dos principais desafios.

Uma pesquisa publicada na revista científica Menopause revelou que cerca de um terço das mulheres acima dos 35 anos não sabe dizer se já entrou na perimenopausa. Entre as participantes, muitas relataram atribuir sintomas como fadiga, alterações de memória, irritabilidade e dificuldade de concentração ao excesso de trabalho ou ao envelhecimento, sem imaginar que poderiam estar relacionados às mudanças hormonais.

Segundo a fisioterapeuta pélvica Regiane Migliorini, especialista em disfunções do assoalho pélvico, o mesmo acontece com sintomas urinários e alterações na região pélvica.

“É comum que mulheres procurem atendimento acreditando que a perda urinária, a urgência para urinar ou até o desconforto durante as relações sexuais sejam consequências naturais da idade. Na realidade, muitas dessas alterações estão relacionadas às mudanças que acontecem durante a perimenopausa e podem ser tratadas.”

O que acontece com a saúde pélvica nessa fase?

Durante a perimenopausa, a redução progressiva dos níveis de estrogênio interfere diretamente na qualidade dos tecidos, na produção de colágeno e na função muscular do assoalho pélvico.

A International Urogynecological Association (IUGA) explica que essas alterações podem favorecer sintomas como perda urinária, aumento da frequência urinária, urgência miccional, sensação de peso na região pélvica e dor durante as relações sexuais, além de contribuir para a chamada Síndrome Geniturinária da Menopausa.

Esses sintomas podem parecer pequenos isoladamente, mas costumam impactar significativamente a rotina.

“Muitas mulheres deixam de praticar atividade física, evitam viagens longas, passam a procurar banheiros com mais frequência ou começam a reorganizar o dia em função desses sintomas. Isso interfere diretamente na autonomia e na qualidade de vida”, explica Regiane.

O mercado de trabalho começa a discutir o tema

Enquanto a ciência amplia o conhecimento sobre a perimenopausa, empresas ao redor do mundo começam a perceber que o assunto também diz respeito à gestão de pessoas.

No Reino Unido, um relatório do governo britânico apontou que os sintomas da menopausa e da perimenopausa podem influenciar produtividade, retenção de talentos e bem-estar no ambiente corporativo. Já uma pesquisa da Fawcett Society revelou que uma em cada dez mulheres deixou o emprego devido aos sintomas relacionados à menopausa.

Embora os dados sejam internacionais, eles chamam atenção para um debate que começa a ganhar espaço também no Brasil: como apoiar mulheres que vivem essa fase justamente no auge da carreira?
Para Regiane, esse cuidado também passa pela saúde pélvica.

“Quando falamos em qualidade de vida na perimenopausa, precisamos incluir a saúde do assoalho pélvico nessa conversa. Muitas mulheres convivem silenciosamente com sintomas que podem ser prevenidos ou tratados, mas que acabam interferindo na autoestima, na confiança e até no desempenho profissional.”

A fisioterapia pélvica ganha espaço

Nos últimos anos, as principais diretrizes internacionais passaram a recomendar abordagens conservadoras como primeira opção para diversas disfunções do assoalho pélvico.

A International Continence Society (ICS) e a International Urogynecological Association (IUGA) destacam que a fisioterapia pélvica desempenha papel importante na prevenção e no tratamento de sintomas urinários, na melhora da função muscular e na promoção da qualidade de vida de mulheres durante a transição menopausal.

“A expectativa de vida da mulher brasileira aumentou significativamente. Isso significa que ela viverá cerca de um terço da vida após a menopausa. Cuidar da saúde pélvica não é apenas tratar sintomas; é preservar autonomia, funcionalidade e qualidade de vida por muitos anos”, conclui Regiane.

(Fotos: Depositphotos)

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